No Caminho Vajrayana

Entrevista à GENTLE VOICE em março de 2002.

De janeiro a março de 2001, Dzongsar Khyentse Rinpoche deu ensinamentos sobre o Ngöndro Longchen Nyingthik no Centro de Retiro Sea to Sky, próximo a Vancouver, no Canadá. Aqui estão algumas perguntas e respostas relacionadas a esses ensinamentos.

Sobre orgulho e inveja

Aluno: Rinpoche, quais são os melhores antídotos para o orgulho e a inveja?

Rinpoche: Regozijo! Assim como está sugerido na Prece dos Sete Ramos. É difícil lidar com esses dois, orgulho e inveja, especialmente o orgulho. É melhor não ir aonde o orgulho possa acontecer; evite se envolver com o orgulho. Depois de muitos anos de prática, você ainda vai notar que orgulho, inveja e raiva aparecem, mas vai perceber que eles permanecem por menos tempo.  Se agora você se dá conta de que sente orgulho ou inveja, isso já é bastante bom.  E você deveria admitir que se trata de orgulho ou inveja. Claro, muito disso tem a ver com confiança. Se você tem confiança, você não tem orgulho nem inveja.

Sobre distração

A:  Rinpoche, parece que algumas das práticas, por causa de suas formas elaboradas e mantras, acabam trazendo mais pensamentos, aceleram mais a mente. Tenho a impressão de que basta sentar, e as coisas se acalmam. Especialmente na prática de oferenda de mandala, percebo que posso me distrair completamente da prática por um longo tempo, por causa de tudo o que está acontecendo.

R: Penso que isso ainda é um risco menor do que você pensar que está meditando, mas de fato não estar ali presente.  A meditação traz uma porção de brechas e desvios, e é fácil você se perder; esses desvios são muito sutis. A maior dificuldade do meditador é não saber se está se distraindo ou se concentrando. Especialmente quando ele vai ficando mais maduro.

A: Então, como posso saber?

R: Bem, você saberá assim que estiver bom o suficiente, mas, em algum lugar no meio do caminho, é bastante difícil saber. E, quando você sabe, há uma outra dificuldade:  você não confia no que sabe.  Aí, nossos velhos hábitos nos dizem:  "Ah, leia um livro, analise isto." E nós vamos analisar, vamos ler sobre Madhyamika.  Mas, na verdade, isso é um desvio. Madhyamika é bom para estabelecer a visão; quando praticamos, porém, precisamos também ter uma certa confiança. É por isso, imagino eu, que os lamas sempre enfatizam práticas como o ngöndro. Patrul Rinpoche nos dá o exemplo de um iaque selvagem que você amarra com uma corda comprida, e depois prende a corda numa estaca forte.  Meditações que têm forma, como oferenda de mandala, são como uma estaca. Numa prática assim, você pode facilmente dizer quando não está pensando em oferecer seu corpo, fala e mente, ou o Monte Meru, fontes cristalinas, guirlandas de flores,  ou as senhoras das guirlandas, das lamparinas, dos deleites, etc. Em vez disso, se você estiver pensando em Roma ou Paris, você está distraído. É mais ou menos fácil distinguir.

Sobre oração

A: Você tem algum conselho sobre como lidar com as dúvidas que aparecem? Tenho muitas dúvidas quando estou praticando porque sinto como se estivesse inventando aquilo tudo, o tempo todo.

R: Existem muitas maneiras. Não pense que essas dúvidas vão diminuir; na verdade, vão aumentar. E, na medida em que você pratica mais, suas dúvidas vão se tornar mais afiadas e inteligentes.  Agora, essas dúvidas são muito bobas, fáceis de responder.  Basta ler alguns livros e você consegue resolver o problema, se você realmente precisa fazer isso. Mas, sugiro não ler livros. Na minha opinião, o melhor a fazer, quando a dúvida aparece, é orar aos objetos de refúgio,  se você estiver praticando tomada de refúgio, ou então orar ao  guru. Reze para que suas dúvidas se transformem em sabedoria. Essa é a melhor maneira e a mais fácil. Não pense em outros métodos. Você pode analisar, ler livros inteiros sobre Madhyamika, e isso vai ajudar hoje; amanhã, porém, vão aparecer novas dúvidas. E aí você terá que ler outro livro.

Aqui vai um conselho: quando praticamos e pedimos bênçãos, nossa tendência é pensar em questões grandiosas, porém remotas, como a purificação dos obscurecimentos. Mas você deve rezar sobre o que acontece aqui e agora, como perda de inspiração, dispersão da mente, falta de entendimento do darma, coisas assim. Não sobre questões genéricas. Você entende o que estou dizendo?

A: Purificar o que estiver ocorrendo?

R: Sim. É sempre melhor. Claro, as questões genéricas também. Você pode até pensar:  "Possa eu purificar todos os meus obscurecimentos do passado, presente e futuro."  As pessoas, de fato, fazem isso.  É isso o que também diz o texto. Mas eu sempre gosto de incluir os problemas  que estou tendo no momento.  Principalmente esses, sejam quais forem. E temos um monte deles! Você não pode pensar:  "Essa é uma preocupação mundana demais; eu não deveria incomodar Guru Rinpoche com isso."  Você não deveria pensar assim.  Guru Rinpoche faz de tudo. Se o fogão na cozinha não está funcionando, você pode rezar por isso também. Guru Rinpoche cobre tudo, desde Iluminação até o fogão. Ou uma briga entre duas pessoas -- especialmente esses casos. João pode estar rezando:  "Guru Rinpoche, por favor, faça Maria me ouvir."  E Maria está rezando:  "Guru Rinpoche, por favor, faça João me ouvir."  E aí, os dois podem conversar.  Portanto, inclua todas as coisas. De tempos em tempos, lembre-se do aspecto ilusório, de que tudo é uma ilusão, de que nada tem uma natureza verdadeiramente existente. Dessa maneira, quando uma prece não é atendida logo no dia seguinte, você não vai ficar desanimado.  

Sobre visualização

A: Rinpoche, você tem algum conselho sobre como fazer visualização? Eu tenho dificuldade nesse departamento.

R: Bem, se você está  tendo dificuldade, comece a aprender a ter confiança de que eles estão ali. Em vez de ir para os detalhes dos cabelos, como caem sobre o pescoço e os ombros, a maneira como a  faca é segurada, seja o que for...Esqueça disso! Apenas pense que eles estão ali.

Sobre a prática pós-meditativa

A: Quando você faz prática no período de pós-meditação, você pensa que o corpo ou o mundo são dharmakaya?

R: Idealmente, deveríamos ver todas as coisas como a deidade. Mas isso é muito difícil para nós; sendo assim, os principiantes como nós deveriam aprender a pensar que as coisas são ilusórias.  Agora, ver os fenômenos como a deidade e vê-los como uma ilusão são coisas muito ligadas.  Se você, porém, me perguntar:  "Qual  dos dois acumula mais mérito?", eu diria ver os fenômenos como a deidade. Essa é a sofisticação do Vajrayana. Mas, de novo, surge a questão:  "Porque deidade?''. Porque os fenômenos são ilusórios. Você olha para  Maria -- ela é totalmente uma ilusão; a maneira como você a vê é uma projeção da sua mente.  Então, pense que o modo como ela aparece na sua mente não é realmente o que ela é. Com base nisso, você pode pensar que ela não é o ser comum que você percebe --  ela é Vajrayogini. Assim, todas as interações entre você e ela se tornam mais significativas. Como os professores do Theravada estão interessados em libertar você do sofrimento, eles vão lhe ensinar a pensar que ela não é bonita, que ela é um esqueleto. E, no Mahayana, ensinam a você que ela é uma ilusão. No Vajrayana, ela é uma deidade.